Carreira em Y, W ou Lattice: qual modelo faz mais sentido para sua empresa

A estruturação de trilhas de carreira é um dos pilares mais críticos para retenção de talentos e crescimento sustentável de uma organização. Segundo o relatório “Tendências Globais de Talentos 2024-2025” da Mercer, “projetar processos de talento em torno de habilidades” estão entre as principais prioridades de RH para 2025 e que a “incapacidade de requalificar/aprimorar as habilidades para acompanhar as demandas dos clientes” está entre os principais riscos para o crescimento dos negócios em 2025.
Para pequenas e médias empresas, essa decisão se torna ainda mais estratégica: escolher o modelo errado pode gerar frustração, perda de talentos chave e custos desnecessários.
Por que esse tema é tão discutido atualmente?
O modelo tradicional de carreira linear — onde a única forma de crescer é assumir posições de liderança — não funciona mais.
Profissionais altamente especializados estão deixando empresas porque não querem ser gestores, mas também não veem perspectiva de crescimento. Simultaneamente, organizações enfrentam o desafio de reconhecer e reter especialistas técnicos sem inflar artificialmente a estrutura hierárquica.

Três modelos principais:
1. Carreira em Y:
É o modelo mais conhecido e acessível para pequenas e médias empresas. Aqui, o profi ssional chega a um ponto de bifurcação: pode seguir pela trilha de gestão (liderança de pessoas) ou pela trilha técnica/especialista (aprofundamento em sua área de expertise). Ambas as trilhas possuem níveis equivalentes de reconhecimento, remuneração e status organizacional.
2. Carreira em W:
Adiciona uma terceira via à estrutura do Y: além das trilhas de gestão e técnica, cria-se uma trilha de gestão de projetos ou produtos. Esse modelo é especialmente efi caz em empresas de tecnologia, consultorias e organizações matriciais, onde líderes de projeto desempenham papel estratégico sem necessariamente gerenciar equipes permanentes.
3. Carreira Lattice
(ou em grade):
É o modelo mais flexível e moderno. Ao invés de progressões apenas verticais, permite movimentações laterais, diagonais e até temporariamente “para baixo” para adquirir novas competências. É ideal para ambientes que valorizam agilidade, aprendizado contínuo e versatilidade, que requer significativa maturidade organizacional.

Como escolher o modelo ideal para sua empresa?
A escolha não deve se basear “em qual estrutura fica mais bonita” e sim três variáveis principais:

Tamanho e maturidade organizacional: Empresas com 50-150 colaboradores geralmente obtêm melhor resultado com o modelo Y, que é mais simples de implementar e comunicar. O modelo W faz sentido a partir de 150-200 pessoas, quando a complexidade de projetos justifica uma trilha dedicada. Já o
Lattice demanda estruturas acima de 200 pessoas e cultura organizacional muito bem estabelecida.


Natureza do negócio: Empresas de tecnologia, engenharia e consultorias se benefi ciam enormemente dos modelos Y e W, pois naturalmente possuem alto valor de expertise técnica. Já negócios com forte componente de inovação e mudança constante podem explorar o Lattice como diferencial competitivo.

Perfil dos talentos: Avalie seu time atual. Se você possui muitos especialistas seniores resistentes a assumir gestão, o Y é essencial. Se há profissionais que transitam bem entre diferentes áreas, o
Lattice pode liberar potencial escondido.


Implementação: passo a passo essencial

Abaixo, elenco cinco passos para a implantação:

  1. Mapeie as competências críticas de cada trilha. Na trilha técnica, quais são os níveis de especialização? Na gestão, quais competências de liderança são não negociáveis?
  2. Defina níveis equivalentes entre trilhas. Um especialista sênior na trilha técnica deve ter remuneração, benefícios e influência organizacional comparáveis a qual nível na trilha de gestão?
  3. Estabeleça critérios transparentes de progressão. Publique claramente o que é necessário para avançar em cada nível: competências, entregas, tempo mínimo, certificações.
  4. Comunique amplamente. Não basta documentar; é preciso realizar workshops, conversas individuais e garantir que todos entendam suas opções de crescimento.
  5. Revise anualmente. Mercados mudam, competências evoluem. Sua estrutura de carreira deve ser um documento vivo.

Erros comuns que você deve evitar

Criar trilhas técnicas como “consolação”: Se a trilha técnica tiver remuneração ou status inferiores, você não criou um Y verdadeiro — apenas uma saída para quem “não deu certo” na gestão.
Falta de clareza nos critérios: Progressões baseadas em subjetividade geram percepção de injustiça e destroem credibilidade do sistema.
Implementar modelos complexos prematuramente: Uma empresa de 80 pessoas não precisa de um
Lattice. Comece simples e evolua conforme crescer.
Esquecer a remuneração: Estruturas de carreira desconectadas da arquitetura salarial fracassam rapidamente. As trilhas precisam estar refletidas em faixas salariais, bandas e políticas de benefícios.

Indicadores: como monitorar os resultados dessa implementação
Abaixo, deixo três métricas principais:
1. Taxa de retenção de talentos críticos
2. Tempo médio para promoção
3. Pesquisas de engajamento – Perguntas sobre “clareza de carreira” e “oportunidades de crescimento”


Segundo o relatório da Mercer, estudos de mercado indicam que 88% das empresas que implementam adequadamente estruturas de carreira e aplicaram esse redesenho tiveram um aumento na produtividade
dos colaboradores.


Conclusão: comece do jeito certo
A implementação de trilhas de carreira estruturadas não é mais opcional — é um imperativo competitivo. Comece pelo modelo Y se estiver em dúvida: é testado, funcional e escalável. O importante é dar o primeiro passo com clareza, transparência e compromisso genuíno com o crescimento das pessoas.
Estruturas de carreira não retêm pessoas sozinhas, mas a ausência delas certamente as afasta.

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