Colaborador fora da faixa salarial: como tratar quem está acima ou abaixo
Abaixo e acima da faixa são problemas diferentes. Como calcular o custo de enquadramento, em que ordem corrigir e o que fazer com quem já ganha mais do que a tabela permite.

Em resumo
- Compa-ratio e posicionamento em relação ao mercado mostram o quanto cada pessoa está fora da faixa.
- Quem está abaixo é enquadrado, de uma vez ou em etapas, com critério de prioridade e custo com encargos.
- Quem está acima não pode ter o salário reduzido; as saídas são rever o cargo, congelar o mérito ou reconhecer por variável.
- As regras para cada situação precisam estar na política salarial antes do primeiro caso.
A tabela salarial nova ficou pronta. Ao cruzar com a folha, aparece a lista: algumas dezenas de pessoas abaixo do mínimo da faixa do próprio cargo e outras tantas acima do máximo. Agora a diretoria quer saber duas coisas: quanto custa resolver e o que fazer com quem já ganha mais do que a tabela permite.
Essa lista é o resultado esperado de qualquer estrutura nova ou revisada. O erro é tratar o colaborador fora da faixa salarial com uma única regra, como "enquadra todo mundo agora" ou "não mexe em ninguém". Quem está abaixo e quem está acima são problemas diferentes, com causas, custos e riscos diferentes.
Como identificar quem está fora da faixa
A primeira leitura é direta: o salário está abaixo do mínimo, dentro da faixa ou acima do máximo do cargo. Para saber o quanto está fora, dois indicadores ajudam.
- Compa-ratio: salário dividido pelo ponto médio da faixa, multiplicado por 100. Um compa-ratio de 85 significa que a pessoa ganha 85% do ponto médio. Ele mostra a posição de cada um em relação à referência interna.
- Posicionamento em relação ao mercado: salário dividido pela referência de mercado do cargo, em geral a mediana. É a leitura que o DataSalarial faz pessoa a pessoa:
- abaixo de 70%: situação crítica;
- de 70% a 90%: tensão, com risco moderado;
- de 90% a 110%: alinhado;
- acima de 110%: pede atenção, e às vezes indica alguém que já deveria estar em outro cargo.
Os dois indicadores precisam ser lidos por recorte. Uma média geral confortável pode esconder uma área inteira abaixo da faixa. O percentual de pessoas fora da faixa está entre os indicadores de remuneração que vale acompanhar.
Quem está abaixo da faixa
As causas mais comuns são:
- contratações feitas abaixo do mínimo em períodos de orçamento apertado;
- promoções sem ajuste salarial;
- uma tabela que foi atualizada sem que os salários acompanhassem.
Esse é o grupo de maior risco de saída. Os profissionais mais procurados pelo mercado são justamente os que conseguem uma proposta melhor primeiro.
O tratamento é o enquadramento: levar o salário pelo menos ao mínimo da faixa. A decisão é sobre o ritmo.
| Enquadramento imediato | Enquadramento escalonado | |
|---|---|---|
| Como funciona | Todos vão ao mínimo da faixa de uma vez | A diferença é paga em etapas, por exemplo em duas ou três parcelas ao longo de 12 a 24 meses |
| Vantagem | Resolve o risco de saída e de equidade imediatamente | Cabe no orçamento e permite priorizar |
| Risco | Impacto alto na folha de uma só vez | Quem fica para a última etapa pode sair antes dela |
| Faz sentido quando | O custo total é baixo ou o risco de perda é alto | O custo total não cabe no ano e há tempo para planejar |
No escalonado, a ordem precisa ter critério, e não depender de quem reclamou mais alto. Alguns critérios comuns:
- a distância até o mínimo, começando por quem está mais longe;
- a criticidade do cargo;
- o desempenho;
- o risco de equidade, quando pessoas na mesma função e com trajetórias equivalentes estão em pontos muito diferentes.
Um exemplo ilustrativo de custo
Imagine 25 pessoas abaixo do mínimo, com diferença média de R$ 600 por mês. Os números são hipotéticos.
- A diferença mensal é de R$ 15.000.
- Considerando 13 salários e o terço de férias, o custo anual chega a cerca de R$ 200.000, antes dos encargos.
- Com encargos e provisões, o número sobe de forma relevante, e é esse número completo que a diretoria precisa ver.
Apresentar só a diferença mensal subestima a decisão e costuma gerar desconfiança quando o custo real aparece. Escalonar em duas etapas divide o impacto entre dois exercícios, e a lista de prioridades define quem entra primeiro.
Quem está acima da faixa
Quem ganha acima do máximo do próprio cargo normalmente chegou ali por um caminho legítimo:
- muitos anos de mérito no mesmo cargo;
- uma contraproposta;
- uma contratação em período de mercado aquecido;
- uma estrutura nova com faixas mais baixas do que o salário que a pessoa já tinha.
Uma restrição vem antes de qualquer opção: o salário não pode ser reduzido. A Constituição garante a irredutibilidade salarial (art. 7º, VI), salvo o disposto em convenção ou acordo coletivo. Reduzir para caber na faixa não é uma alternativa. As alternativas reais são outras:
- Verificar se o cargo está certo. Às vezes a pessoa está acima da faixa porque já exerce um cargo maior que o registrado. Nesse caso, o problema não é o salário, é o enquadramento, e a solução é a promoção ou a reavaliação do cargo.
- Congelar o salário-base. A pessoa deixa de receber aumentos por mérito até que a atualização da tabela alcance o salário dela. Os reajustes obrigatórios por convenção ou acordo coletivo continuam sendo aplicados: o congelamento vale para os aumentos que dependem da empresa.
- Reconhecer o desempenho sem incorporar. Para quem tem bom desempenho e está congelado, o reconhecimento pode vir por remuneração variável ou por um pagamento único no ciclo, sem incorporação ao salário-base (o lump sum). A CLT (art. 457, §§2º e 4º) prevê que prêmios, definidos como liberalidades pagas por desempenho superior ao ordinariamente esperado, não integram a remuneração. Para se sustentar como prêmio, o pagamento precisa estar de fato ligado a desempenho acima do esperado, com critério registrado. Pago a todos, todo ano, no mesmo valor, ele perde esse caráter.
- Documentar a exceção. Se a empresa decide manter alguém acima da faixa por um motivo específico, como conhecimento crítico ou risco de saída, o motivo e o prazo de revisão ficam registrados.
Atenção a um efeito pouco lembrado: quem está acima da faixa pode se tornar o paradigma de um pedido de equiparação salarial de um colega na mesma função. Quanto melhor documentado estiver o motivo da diferença, menor o risco.
As regras precisam estar na política
Tratar cada caso como uma negociação nova é o que gerou a lista. As regras para quem está fora da faixa precisam estar escritas na política salarial antes de serem aplicadas:
| Situação | Regra típica | Quem aprova |
|---|---|---|
| Admissão abaixo do mínimo da faixa | Não permitida, ou permitida só com prazo definido para chegar ao mínimo | Diretoria |
| Colaborador abaixo do mínimo | Enquadramento imediato ou escalonado, com critérios de prioridade e prazo máximo | RH propõe, diretoria aprova o orçamento |
| Colaborador acima do máximo | Sem mérito no salário-base até a tabela alcançar. Reconhecimento por variável. Revisão do cargo | RH |
| Exceção por motivo estratégico | Registrada com motivo, valor e data de revisão | Diretoria |
| Admissão acima do máximo | Só com aprovação formal e registro do motivo | Diretoria |
Como comunicar
As duas conversas exigem cuidado diferente.
- Para quem será enquadrado, o importante é dizer a data. Uma promessa de ajuste sem data soa como nenhum ajuste.
- Para quem está acima da faixa, o importante é deixar claro que não é uma punição. O salário não será reduzido. A pessoa ganha mais do que a referência do cargo, e os próximos aumentos dependerão da evolução da tabela ou de uma mudança de cargo.
- Para os gestores, vale explicar as regras antes que eles precisem responder a perguntas da equipe.
Para calcular o custo de enquadramento antes da decisão, conheça a solução de Cargos e Salários. Para revisar a tabela que gerou a lista, veja como atualizar a tabela salarial.
Uma faixa salarial só vale como regra se a empresa sabe o que fazer com quem não cabe nela.
Perguntas frequentes
O que fazer com funcionário acima da faixa salarial?
Primeiro, verificar se o cargo está certo, porque a pessoa pode já exercer um cargo maior. Se o cargo está correto, o caminho usual é congelar o mérito no salário-base até a tabela alcançar o salário e reconhecer o desempenho por remuneração variável. O salário não pode ser reduzido.
Posso reduzir o salário de quem está acima da faixa?
Não. A Constituição garante a irredutibilidade salarial (art. 7º, VI), salvo o disposto em convenção ou acordo coletivo.
O que é enquadramento salarial?
É o ajuste que leva o salário de quem está abaixo do mínimo da faixa do próprio cargo até, pelo menos, esse mínimo. Pode ser feito de uma vez ou em etapas, conforme o orçamento e as prioridades.
Como calcular o compa-ratio?
Divida o salário da pessoa pelo ponto médio da faixa do cargo e multiplique por 100. Um compa-ratio de 85 indica salário equivalente a 85% do ponto médio.
O reajuste da convenção vale para quem está acima da faixa?
Sim. O congelamento vale para os aumentos que dependem da empresa, como o mérito. Reajustes obrigatórios por convenção ou acordo coletivo continuam sendo aplicados.

Lorenzo Danelon
Sócio-fundador da WorkForce RH
Engenharia de Produção pelo Mackenzie e pós-graduação em Remuneração Estratégica. Vem de remuneração, orçamento de pessoas, indicadores e folha de pagamento. É a liderança técnica da casa: método, condução dos projetos e qualidade da entrega.
Fontes


