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Colaborador fora da faixa salarial: como tratar quem está acima ou abaixo

Abaixo e acima da faixa são problemas diferentes. Como calcular o custo de enquadramento, em que ordem corrigir e o que fazer com quem já ganha mais do que a tabela permite.

Lorenzo Danelon
Lorenzo Danelon · Sócio-fundador da WorkForce RH

· 6 min de leitura

Ilustração em traço dourado sobre azul-marinho de uma pauta musical, com a maioria das notas dentro das linhas e algumas acima e abaixo delas

Em resumo

  • Compa-ratio e posicionamento em relação ao mercado mostram o quanto cada pessoa está fora da faixa.
  • Quem está abaixo é enquadrado, de uma vez ou em etapas, com critério de prioridade e custo com encargos.
  • Quem está acima não pode ter o salário reduzido; as saídas são rever o cargo, congelar o mérito ou reconhecer por variável.
  • As regras para cada situação precisam estar na política salarial antes do primeiro caso.

A tabela salarial nova ficou pronta. Ao cruzar com a folha, aparece a lista: algumas dezenas de pessoas abaixo do mínimo da faixa do próprio cargo e outras tantas acima do máximo. Agora a diretoria quer saber duas coisas: quanto custa resolver e o que fazer com quem já ganha mais do que a tabela permite.

Essa lista é o resultado esperado de qualquer estrutura nova ou revisada. O erro é tratar o colaborador fora da faixa salarial com uma única regra, como "enquadra todo mundo agora" ou "não mexe em ninguém". Quem está abaixo e quem está acima são problemas diferentes, com causas, custos e riscos diferentes.

Como identificar quem está fora da faixa

A primeira leitura é direta: o salário está abaixo do mínimo, dentro da faixa ou acima do máximo do cargo. Para saber o quanto está fora, dois indicadores ajudam.

  • Compa-ratio: salário dividido pelo ponto médio da faixa, multiplicado por 100. Um compa-ratio de 85 significa que a pessoa ganha 85% do ponto médio. Ele mostra a posição de cada um em relação à referência interna.
  • Posicionamento em relação ao mercado: salário dividido pela referência de mercado do cargo, em geral a mediana. É a leitura que o DataSalarial faz pessoa a pessoa:
    • abaixo de 70%: situação crítica;
    • de 70% a 90%: tensão, com risco moderado;
    • de 90% a 110%: alinhado;
    • acima de 110%: pede atenção, e às vezes indica alguém que já deveria estar em outro cargo.

Os dois indicadores precisam ser lidos por recorte. Uma média geral confortável pode esconder uma área inteira abaixo da faixa. O percentual de pessoas fora da faixa está entre os indicadores de remuneração que vale acompanhar.

Quem está abaixo da faixa

As causas mais comuns são:

  • contratações feitas abaixo do mínimo em períodos de orçamento apertado;
  • promoções sem ajuste salarial;
  • uma tabela que foi atualizada sem que os salários acompanhassem.

Esse é o grupo de maior risco de saída. Os profissionais mais procurados pelo mercado são justamente os que conseguem uma proposta melhor primeiro.

O tratamento é o enquadramento: levar o salário pelo menos ao mínimo da faixa. A decisão é sobre o ritmo.

Enquadramento imediatoEnquadramento escalonado
Como funcionaTodos vão ao mínimo da faixa de uma vezA diferença é paga em etapas, por exemplo em duas ou três parcelas ao longo de 12 a 24 meses
VantagemResolve o risco de saída e de equidade imediatamenteCabe no orçamento e permite priorizar
RiscoImpacto alto na folha de uma só vezQuem fica para a última etapa pode sair antes dela
Faz sentido quandoO custo total é baixo ou o risco de perda é altoO custo total não cabe no ano e há tempo para planejar

No escalonado, a ordem precisa ter critério, e não depender de quem reclamou mais alto. Alguns critérios comuns:

  • a distância até o mínimo, começando por quem está mais longe;
  • a criticidade do cargo;
  • o desempenho;
  • o risco de equidade, quando pessoas na mesma função e com trajetórias equivalentes estão em pontos muito diferentes.

Um exemplo ilustrativo de custo

Imagine 25 pessoas abaixo do mínimo, com diferença média de R$ 600 por mês. Os números são hipotéticos.

  • A diferença mensal é de R$ 15.000.
  • Considerando 13 salários e o terço de férias, o custo anual chega a cerca de R$ 200.000, antes dos encargos.
  • Com encargos e provisões, o número sobe de forma relevante, e é esse número completo que a diretoria precisa ver.

Apresentar só a diferença mensal subestima a decisão e costuma gerar desconfiança quando o custo real aparece. Escalonar em duas etapas divide o impacto entre dois exercícios, e a lista de prioridades define quem entra primeiro.

Quem está acima da faixa

Quem ganha acima do máximo do próprio cargo normalmente chegou ali por um caminho legítimo:

  • muitos anos de mérito no mesmo cargo;
  • uma contraproposta;
  • uma contratação em período de mercado aquecido;
  • uma estrutura nova com faixas mais baixas do que o salário que a pessoa já tinha.

Uma restrição vem antes de qualquer opção: o salário não pode ser reduzido. A Constituição garante a irredutibilidade salarial (art. 7º, VI), salvo o disposto em convenção ou acordo coletivo. Reduzir para caber na faixa não é uma alternativa. As alternativas reais são outras:

  1. Verificar se o cargo está certo. Às vezes a pessoa está acima da faixa porque já exerce um cargo maior que o registrado. Nesse caso, o problema não é o salário, é o enquadramento, e a solução é a promoção ou a reavaliação do cargo.
  2. Congelar o salário-base. A pessoa deixa de receber aumentos por mérito até que a atualização da tabela alcance o salário dela. Os reajustes obrigatórios por convenção ou acordo coletivo continuam sendo aplicados: o congelamento vale para os aumentos que dependem da empresa.
  3. Reconhecer o desempenho sem incorporar. Para quem tem bom desempenho e está congelado, o reconhecimento pode vir por remuneração variável ou por um pagamento único no ciclo, sem incorporação ao salário-base (o lump sum). A CLT (art. 457, §§2º e 4º) prevê que prêmios, definidos como liberalidades pagas por desempenho superior ao ordinariamente esperado, não integram a remuneração. Para se sustentar como prêmio, o pagamento precisa estar de fato ligado a desempenho acima do esperado, com critério registrado. Pago a todos, todo ano, no mesmo valor, ele perde esse caráter.
  4. Documentar a exceção. Se a empresa decide manter alguém acima da faixa por um motivo específico, como conhecimento crítico ou risco de saída, o motivo e o prazo de revisão ficam registrados.

Atenção a um efeito pouco lembrado: quem está acima da faixa pode se tornar o paradigma de um pedido de equiparação salarial de um colega na mesma função. Quanto melhor documentado estiver o motivo da diferença, menor o risco.

As regras precisam estar na política

Tratar cada caso como uma negociação nova é o que gerou a lista. As regras para quem está fora da faixa precisam estar escritas na política salarial antes de serem aplicadas:

SituaçãoRegra típicaQuem aprova
Admissão abaixo do mínimo da faixaNão permitida, ou permitida só com prazo definido para chegar ao mínimoDiretoria
Colaborador abaixo do mínimoEnquadramento imediato ou escalonado, com critérios de prioridade e prazo máximoRH propõe, diretoria aprova o orçamento
Colaborador acima do máximoSem mérito no salário-base até a tabela alcançar. Reconhecimento por variável. Revisão do cargoRH
Exceção por motivo estratégicoRegistrada com motivo, valor e data de revisãoDiretoria
Admissão acima do máximoSó com aprovação formal e registro do motivoDiretoria

Como comunicar

As duas conversas exigem cuidado diferente.

  • Para quem será enquadrado, o importante é dizer a data. Uma promessa de ajuste sem data soa como nenhum ajuste.
  • Para quem está acima da faixa, o importante é deixar claro que não é uma punição. O salário não será reduzido. A pessoa ganha mais do que a referência do cargo, e os próximos aumentos dependerão da evolução da tabela ou de uma mudança de cargo.
  • Para os gestores, vale explicar as regras antes que eles precisem responder a perguntas da equipe.

Para calcular o custo de enquadramento antes da decisão, conheça a solução de Cargos e Salários. Para revisar a tabela que gerou a lista, veja como atualizar a tabela salarial.

Uma faixa salarial só vale como regra se a empresa sabe o que fazer com quem não cabe nela.

Perguntas frequentes

O que fazer com funcionário acima da faixa salarial?

Primeiro, verificar se o cargo está certo, porque a pessoa pode já exercer um cargo maior. Se o cargo está correto, o caminho usual é congelar o mérito no salário-base até a tabela alcançar o salário e reconhecer o desempenho por remuneração variável. O salário não pode ser reduzido.

Posso reduzir o salário de quem está acima da faixa?

Não. A Constituição garante a irredutibilidade salarial (art. 7º, VI), salvo o disposto em convenção ou acordo coletivo.

O que é enquadramento salarial?

É o ajuste que leva o salário de quem está abaixo do mínimo da faixa do próprio cargo até, pelo menos, esse mínimo. Pode ser feito de uma vez ou em etapas, conforme o orçamento e as prioridades.

Como calcular o compa-ratio?

Divida o salário da pessoa pelo ponto médio da faixa do cargo e multiplique por 100. Um compa-ratio de 85 indica salário equivalente a 85% do ponto médio.

O reajuste da convenção vale para quem está acima da faixa?

Sim. O congelamento vale para os aumentos que dependem da empresa, como o mérito. Reajustes obrigatórios por convenção ou acordo coletivo continuam sendo aplicados.

Lorenzo Danelon

Sócio-fundador da WorkForce RH

Engenharia de Produção pelo Mackenzie e pós-graduação em Remuneração Estratégica. Vem de remuneração, orçamento de pessoas, indicadores e folha de pagamento. É a liderança técnica da casa: método, condução dos projetos e qualidade da entrega.

Fontes

  1. Constituição Federal, art. 7º, VI (irredutibilidade do salário)
  2. Consolidação das Leis do Trabalho, art. 457, §§2º e 4º (prêmios e parcelas que não integram a remuneração)

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