Blog/Mercado e tabela

IA e remuneração: o que muda nos cargos e salários

A IA muda o conteúdo dos cargos antes de mudar o nome deles. Como isso afeta níveis, tabela salarial e metas, e o que o RH pode revisar para não decidir sobre uma estrutura que ficou para trás.

Igor dos Santos
Igor dos Santos · Sócio-fundador da WorkForce RH

· 5 min de leitura

Profissionais de tecnologia trabalhando à noite diante de telas com código

Em resumo

  • Segundo o Fórum Econômico Mundial, quase 40% das habilidades exigidas no trabalho devem mudar até 2030.
  • A IA muda o conteúdo dos cargos antes do nome, comprime níveis e faz o mercado reprecificar funções cargo a cargo.
  • Pesquisa publicada na Harvard Business Review mostrou que mais de 40% dos profissionais receberam workslop, trabalho gerado por IA sem substância, no último mês.
  • O RH pode agir agora: atualizar descrições, revisar níveis, comparar com o mercado com mais frequência e trocar metas de volume por metas de resultado.

A inteligência artificial está mudando o que as pessoas fazem no trabalho, e isso chega, mais cedo ou mais tarde, à estrutura de cargos e à tabela salarial. Quando um profissional júnior passa a entregar com IA o que um pleno entregava, ou quando uma atividade inteira de apoio é automatizada, as perguntas são de remuneração: esse cargo ainda vale o mesmo? Esses níveis ainda fazem sentido? Quanto o mercado paga por quem domina essas ferramentas?

Neste artigo, explicamos como a IA afeta cargos e salários, por que ela amplifica o que já existe na estrutura, e o que o RH pode revisar agora para não decidir remuneração com base em uma estrutura que ficou para trás.

O tamanho da mudança

O Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, com mais de mil grandes empregadores, projeta que a transformação do trabalho até 2030 deve criar 170 milhões de postos e eliminar 92 milhões, e que quase 40% das habilidades exigidas no trabalho devem mudar no período. Tecnologia, dados e IA estão entre as áreas de maior crescimento.

Para a gestão de remuneração, o ponto não é prever quais cargos vão desaparecer. É reconhecer que o conteúdo de muitos cargos já mudou, e que a estrutura precisa acompanhar.

Como a IA afeta cargos e salários

O conteúdo dos cargos muda antes do nome

A IA raramente elimina um cargo de uma vez. Ela muda partes da função: o analista que gastava metade do tempo consolidando dados passa a gastar esse tempo analisando. O nome do cargo continua o mesmo, mas a complexidade da entrega não. Se a descrição de cargo não acompanha, a avaliação do cargo e a comparação com o mercado ficam erradas.

Os níveis se comprimem

Quando ferramentas elevam o patamar do que um profissional iniciante consegue entregar, a distância entre júnior e pleno diminui em algumas funções. Nos nossos projetos, também temos observado redução do nível de auxiliar em áreas em que as tarefas de apoio foram automatizadas. Níveis que não representam mais diferenças reais de complexidade geram sobreposição salarial, um problema que discutimos em trilha de carreira.

O mercado reprecifica por cargo, e mais rápido

Funções ligadas a dados e IA tendem a se valorizar, enquanto outras podem ter o valor de mercado corrigido. Esse movimento acontece cargo a cargo, e não de forma uniforme. Uma tabela validada há dois ou três anos pode estar desalinhada justamente nas funções mais afetadas: pagando acima do necessário em umas e perdendo talentos em outras. Veja como atualizar a tabela salarial.

A IA amplifica o que já existe na estrutura

Em setembro de 2025, pesquisadores da BetterUp Labs e do Stanford Social Media Lab publicaram na Harvard Business Review o conceito de workslop: conteúdo gerado por IA que parece trabalho bem feito, mas não tem substância para fazer a tarefa avançar. Slides bonitos sem argumento, relatórios longos sem conclusão. Segundo a pesquisa, feita com profissionais de escritório nos Estados Unidos, mais de 40% tinham recebido workslop no último mês, e cada caso consumia em média quase duas horas para ser interpretado, corrigido ou refeito.

Profissional entre dois cenários: de um lado, IA gerando papéis desorganizados e retrabalho; do outro, IA conectada a metas, dados e resultadosA mesma tecnologia produz retrabalho em uma estrutura confusa e resultado em uma estrutura clara.

O problema não está na ferramenta, e sim no contexto em que ela é usada. Em ambientes sobrecarregados, sem papéis definidos e com metas de volume, a IA vira um jeito de produzir mais entregas, e não melhores. Equipes com papéis claros, entregas bem definidas e carga equilibrada usam IA para fazer mais e melhor; equipes sem essa base podem usar a IA para esconder o caos.

Isso tem consequência direta em remuneração: metas e incentivos que premiam volume de entregas, em vez de resultado, estimulam exatamente esse tipo de trabalho. Veja como desenhar metas em remuneração variável.

Mercado volátil e o plano B dos profissionais

Em um mercado que muda rápido, cresce o chamado career cushioning: profissionais que constroem um plano B, procurando oportunidades mesmo estando empregados e relativamente satisfeitos. Tratar isso como deslealdade não resolve. É um sintoma de que falta algo na experiência interna: perspectiva de futuro, conversas reais de desenvolvimento, clareza sobre como a função vai evoluir.

A pergunta que o RH precisa fazer não é "como impedir?", mas "o que estamos deixando de oferecer?". Estruturas que mostram o caminho, com trilhas, critérios de promoção e remuneração coerente com o mercado, tornam o plano A atraente o suficiente para o plano B perder força.

O que o RH pode revisar agora

  1. Atualize as descrições dos cargos mais afetados. O que mudou na entrega, na autonomia e nas ferramentas? A descrição é a base de qualquer decisão salarial.
  2. Revise os níveis. Os degraus entre auxiliar, júnior, pleno e sênior ainda representam diferenças reais de complexidade?
  3. Compare com o mercado com mais frequência nas famílias de cargos mais expostas: tecnologia, dados, atendimento, áreas administrativas.
  4. Reconheça novas competências com critério. Domínio de ferramentas de IA pode justificar avanço na faixa ou promoção quando muda a entrega, e não apenas por certificação.
  5. Revise metas e incentivos. Troque metas de volume por metas de resultado onde a IA permite inflar a produção.
  6. Defina regras de uso. Quem pode usar o quê, para quais tarefas e com que revisão. Política de uso é parte da estrutura.

Antes de qualquer investimento em tecnologia, vale a pergunta básica: as pessoas sabem exatamente o que se espera delas na função que exercem? Se a resposta não é clara, o ponto de partida é a estrutura. Conheça os projetos de Estrutura Organizacional e de Cargos e Salários, e o DataSalarial, para acompanhar o mercado cargo a cargo.

A IA não vai resolver o que a falta de estrutura criou. Mas, sobre uma estrutura clara, ela multiplica o resultado.

Perguntas frequentes

A IA vai reduzir salários?

Não de forma uniforme. O mercado reprecifica cargo a cargo: funções ligadas a dados e IA tendem a se valorizar, enquanto outras, com tarefas automatizadas, podem ter o valor corrigido. Por isso, a comparação com o mercado precisa ser feita por cargo e com mais frequência nas áreas mais afetadas.

O que é workslop?

É o conteúdo gerado por inteligência artificial que parece trabalho bem feito, mas não tem substância para fazer a tarefa avançar, como slides sem argumento ou relatórios sem conclusão. O termo foi apresentado em 2025 por pesquisadores da BetterUp Labs e do Stanford Social Media Lab, na Harvard Business Review.

O que é career cushioning?

É o movimento de profissionais que constroem um plano B, procurando oportunidades mesmo estando empregados e relativamente satisfeitos, diante de um mercado volátil. Costuma indicar falta de perspectiva de futuro e de conversas de desenvolvimento na empresa.

Domínio de ferramentas de IA deve gerar aumento?

Quando muda a entrega, sim, pode justificar avanço na faixa ou promoção, desde que dentro dos critérios da política salarial. Certificação ou uso da ferramenta, por si só, não muda o valor do cargo.

Como adaptar a estrutura de cargos à IA?

Atualizando as descrições dos cargos mais afetados, revisando se os níveis ainda representam diferenças reais de complexidade, comparando essas funções com o mercado com mais frequência e ajustando metas e incentivos para premiar resultado, e não volume.

Igor dos Santos

Sócio-fundador da WorkForce RH

Administração pela Unicamp e MBA em Gestão Estratégica de Pessoas pela PUC-Campinas. Mais de dez anos em remuneração estratégica e indicadores de RH, com passagem gerencial. Responde pela estratégia, pelo comercial e pela evolução do DataSalarial.

Fontes

  1. Fórum Econômico Mundial, Future of Jobs Report 2025 (comunicado de imprensa)
  2. Niederhoffer, Kellerman, Lee, Liebscher, Rapuano e Hancock, AI-Generated Workslop Is Destroying Productivity, Harvard Business Review, setembro de 2025

Dê o próximo passo

Transforme sua folha de pagamento na sua maior vantagem competitiva.

O crescimento sustentável não sobrevive a tabelas defasadas e decisões baseadas em intuição. Com cargos e salários estruturados em dados reais de mercado, sua empresa retém os melhores talentos e ganha previsibilidade financeira.

Fale com a nossa equipe

Preencha o formulário e um especialista entrará em contato.

Seus dados estão protegidos · Sem spam

Enviar mensagem

Preencha o formulário e um especialista entrará em contato.

Seus dados estão protegidos · Sem spam