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Incentivo de longo prazo (ILP): modelos, tributação e como desenhar
Quando o executivo chega ao topo, a trilha de carreira acaba. Os modelos de ILP, o que mudou na tributação das stock options e como desenhar um plano que retém de verdade.

Em resumo
- ILP é a remuneração variável que depende do desempenho ou da valorização da empresa ao longo de vários anos, com período de vesting para reter.
- Os modelos mais comuns são stock options, ações restritas, phantom shares, bônus diferido e matching de ações.
- Em 2024, o STJ (Tema 1226) definiu que stock options com natureza mercantil não sofrem IR no exercício; o imposto incide na venda, sobre o ganho de capital.
- Um bom plano tem público restrito, vesting realista, regras de saída claras e é validado com assessoria jurídica e tributária.
Um plano de cargos e salários bem estruturado é o mapa que guia o profissional na escalada da empresa. Ele mostra o caminho, define as regras e aponta para a cadeira de diretor. Mas quando o executivo chega lá, o mapa acaba. Não há mais um próximo degrau claro, e o risco de perdê-lo para o mercado aumenta.
É aqui que entra o incentivo de longo prazo (ILP). Enquanto a trilha de carreira responde "como crescer aqui?", o ILP responde "por que continuar aqui?". Neste artigo, explicamos o que é o ILP, os principais modelos, como funciona a tributação depois da decisão do STJ sobre stock options e o que considerar antes de criar um plano.
O que é incentivo de longo prazo
ILP é uma forma de remuneração variável cujo valor depende do desempenho ou da valorização da empresa ao longo de vários anos, normalmente de três a cinco. Ele tem dois objetivos principais:
- Retenção: o benefício só é adquirido por completo depois de um período de permanência, chamado de vesting.
- Alinhamento: o executivo ganha mais quando a empresa vale mais, o que leva as decisões de hoje a considerar a saúde do negócio nos próximos anos, e não só o resultado do trimestre.
Ele é diferente do bônus anual e da PLR, que premiam o resultado de um único exercício. Para ver todos os instrumentos lado a lado, veja o guia de remuneração variável.
Os principais modelos de ILP
| Modelo | Como funciona | Para quem faz sentido |
|---|---|---|
| Stock options (opções de compra) | O executivo recebe o direito de comprar ações no futuro a um preço definido hoje. Só ganha se a ação se valorizar | Empresas com potencial de valorização e ações negociáveis ou com eventos de liquidez previstos |
| Ações restritas | O executivo recebe ações que só passam a ser dele depois do período de vesting | Empresas de capital aberto ou com mecanismo de recompra definido |
| Phantom shares (ações virtuais) | Pagamento em dinheiro equivalente à valorização de ações "virtuais", sem entrega de ações | Empresas de capital fechado ou familiares que não querem abrir o capital social |
| Bônus diferido ou de permanência | Parte do bônus é paga anos depois, condicionada à permanência e, às vezes, a metas plurianuais | Empresas que querem um ILP simples, sem envolver ações |
| Matching de ações | O executivo investe parte do bônus em ações e a empresa entrega ações adicionais depois do vesting | Companhias abertas que querem reforçar o senso de dono |
Segundo a Pesquisa Avançada de Incentivos de Longo Prazo da SG Comp Partners, com mais de 120 empresas, 32% das companhias brasileiras priorizaram planos de ações restritas em 2024, e as stock options voltaram a ganhar espaço em 2025, conforme reportagem da Capital Aberto.
Stock options e tributação: o que mudou com o STJ
Por muitos anos, a tributação das stock options foi motivo de disputa: a Receita Federal tratava o ganho como remuneração, com imposto de renda pela tabela progressiva e encargos previdenciários. Em setembro de 2024, ao julgar o Tema 1226 em recursos repetitivos, o Superior Tribunal de Justiça firmou o entendimento de que os planos de opção de compra regidos pelo art. 168, §3º, da Lei 6.404/1976 têm natureza mercantil. Na prática:
- não incide imposto de renda no momento em que o executivo exerce a opção e compra as ações;
- o imposto incide quando ele vende as ações, sobre o ganho de capital apurado.
A decisão vale para planos com características mercantis: onerosidade (o executivo paga o preço de exercício), risco (pode não haver ganho) e voluntariedade. Planos desenhados como remuneração disfarçada, sem risco real para o beneficiário, continuam sujeitos a questionamento. Phantom shares e bônus diferidos, por serem pagos em dinheiro pela empresa, seguem em geral a lógica de remuneração. O desenho de qualquer ILP precisa ser validado com assessoria jurídica e tributária.
Como desenhar um plano de ILP
- Defina quem participa. ILP costuma ser restrito a diretoria e posições críticas. Ampliar demais dilui o valor e o custo cresce rápido.
- Escolha o instrumento pelo tipo de empresa. Capital aberto ou fechado, expectativa de liquidez, apetite dos sócios para ceder participação.
- Defina o tamanho da concessão. Em geral, expresso como um múltiplo do salário anual ou como percentual da remuneração total do executivo, calibrado com o mercado.
- Defina o vesting. Prazos de três a cinco anos são comuns, com liberação gradual (por exemplo, um terço por ano) ou total no fim do período.
- Inclua condições de desempenho, se fizer sentido. Metas plurianuais de resultado, retorno ou valor da empresa.
- Escreva as regras de saída. O que acontece em demissão, pedido de demissão, aposentadoria, venda da empresa. É a parte que mais gera conflito quando não está clara.
- Use prazos e condições realistas. Um plano cujo prêmio parece inalcançável não retém ninguém. Mecanismos de flexibilidade ajudam a manter o plano relevante em cenários diferentes.
Quando o ILP não é a melhor resposta
ILP não corrige salário fixo abaixo do mercado nem substitui uma estrutura de carreira. Se o executivo está saindo porque a remuneração total está defasada, o primeiro passo é comparar o pacote com o mercado. Se está saindo por falta de perspectiva, a resposta passa por estrutura e papel, como discutimos em contraproposta salarial.
Em empresas menores, ou em momentos de juros altos e incerteza sobre a valorização, um bônus diferido bem desenhado pode cumprir o papel de retenção com menos complexidade do que um plano de ações.
A trilha de carreira traz o talento até a diretoria. O ILP é o que faz ele querer construir os próximos anos ali. Para estruturar a remuneração da liderança junto com o restante do pacote, conheça a solução de Remuneração Total e o artigo sobre recompensa total.
Perguntas frequentes
O que é ILP?
Incentivo de longo prazo é uma forma de remuneração variável cujo valor depende do desempenho ou da valorização da empresa ao longo de vários anos. O benefício só é adquirido por completo depois de um período de permanência, o vesting.
O que é vesting?
É o período de carência até que o executivo adquira o direito ao incentivo. Pode ser total no fim do prazo ou gradual, por exemplo um terço por ano ao longo de três anos.
Stock options pagam imposto de renda?
Segundo o entendimento firmado pelo STJ no Tema 1226, em 2024, planos de opção com natureza mercantil não geram imposto de renda no exercício da opção; o imposto incide na venda das ações, sobre o ganho de capital. O enquadramento de cada plano deve ser validado com assessoria tributária.
O que são phantom shares?
São ações virtuais: o executivo recebe em dinheiro o equivalente à valorização de um número de ações, sem receber ações de fato. É um modelo comum em empresas de capital fechado ou familiares.
Empresa de capital fechado pode ter ILP?
Sim. Phantom shares e bônus diferidos são os modelos mais usados por empresas fechadas, porque não exigem ceder participação societária.

Igor dos Santos
Sócio-fundador da WorkForce RH
Administração pela Unicamp e MBA em Gestão Estratégica de Pessoas pela PUC-Campinas. Mais de dez anos em remuneração estratégica e indicadores de RH, com passagem gerencial. Responde pela estratégia, pelo comercial e pela evolução do DataSalarial.
Fontes


