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Trocar gente economiza salário? O que mostram os dados do Caged

Uma análise própria dos microdados do Novo Caged de janeiro a agosto de 2026 testa a ideia de que repor quem sai sai mais barato. Na maior parte do mercado, não sai.

Igor dos Santos
Igor dos Santos · Sócio-fundador da WorkForce RH

· 5 min de leitura

Ilustração em estilo blueprint do corte técnico de um balde furado sendo reabastecido por um cano, com a água escapando pelo fundo

Em resumo

  • Na mesma ocupação, a mediana salarial de quem foi admitido em 2026 ficou só 0,6% abaixo da de quem foi desligado.
  • Comparando também a mesma faixa de idade, a diferença cai para 0,3%; na maior parte do mercado, a troca sai pelo mesmo preço.
  • A diferença é maior em cargos qualificados e em setores como energia (6,5%), finanças (3,9%) e tecnologia (2,6%).
  • Mesmo onde existe, a economia salarial é pequena diante do custo de reposição, estimado em meio a duas vezes o salário anual.

Existe uma ideia antiga e confortável sobre rotatividade: quando alguém experiente sai, a empresa contrata outra pessoa por menos, e a folha fica mais leve. A saída teria um custo, mas também uma economia.

Fomos verificar essa ideia nos dados. Analisamos os microdados do Novo Caged, o registro oficial de admissões e desligamentos com carteira assinada, de janeiro a agosto de 2026. Foram cerca de 14 milhões de admissões e 13,2 milhões de desligamentos. A pergunta era uma só: na mesma ocupação, quem entra ganha menos do que quem sai?

O resultado: a economia quase não existe

Comparando a mediana salarial de admissão com a de desligamento dentro de cada ocupação (CBO), e ponderando pelo número de admissões, quem entra ganha 0,6% menos do que quem sai. Quando a comparação é feita também dentro da mesma faixa de idade, para reduzir o efeito da experiência, a diferença cai para 0,3%.

Em 61% das ocupações analisadas, a mediana de entrada é de fato menor que a de saída. Mas a distância é pequena: num salário de R$ 2.000, que é próximo da mediana de admissão do período, 0,6% representa cerca de R$ 12 por mês.

Ou seja, na maior parte do mercado formal, a rotatividade troca uma pessoa por outra pelo mesmo preço.

Onde a diferença aparece

A diferença cresce nos cargos mais qualificados e nos setores que concentram esses cargos.

Grande grupo ocupacional (CBO)Quem entra em relação a quem sai
Técnicos de nível médio1,9% menos
Profissionais das ciências e das artes (em geral, nível superior)1,5% menos
Serviços administrativos1,2% menos
Dirigentes e gerentes0,5% menos
Serviços e comércio0,4% menos
Produção industrialpraticamente igual
Setor (seção da CNAE)Quem entra em relação a quem sai, na mesma ocupação
Eletricidade e gás6,5% menos
Atividades financeiras3,9% menos
Indústrias extrativas2,6% menos
Informação e comunicação2,6% menos
Comércio0,8% menos
Construçãopraticamente igual
Atividades administrativas e serviços complementarespraticamente igual

Algumas ocupações com grande volume de contratação ilustram a diferença:

OcupaçãoMediana de admissãoMediana de desligamentoDiferença
EnfermeiroR$ 4.367R$ 4.6686,5% menos
Analista de desenvolvimento de sistemasR$ 7.200R$ 7.5004,0% menos
Analista de suporte computacionalR$ 3.000R$ 3.1233,9% menos
Técnico de apoio ao usuário de informáticaR$ 2.238R$ 2.3173,4% menos
ContadorR$ 4.405R$ 4.4581,2% menos
Analista de recursos humanosR$ 3.800R$ 3.783praticamente igual
AdministradorR$ 4.000R$ 3.9281,8% mais

Uma economia pequena diante de um custo grande

Mesmo onde a diferença existe, ela é pequena perto do custo de repor alguém. A estimativa citada pelo Gallup é de meio a duas vezes o salário anual da pessoa, somando recrutamento, tempo da vaga aberta, treinamento e o período até o substituto atingir o desempenho esperado. Explicamos a conta em custo do turnover.

Um exemplo com os números da tabela, considerando 13 salários e o terço de férias: um analista de desenvolvimento de sistemas que sai ganhando R$ 7.500 é substituído por alguém que entra com R$ 7.200.

  • A economia é de R$ 300 por mês, ou cerca de R$ 4.000 por ano.
  • O custo da saída, pela estimativa mais conservadora do Gallup, de meio salário anual, fica perto de R$ 50.000.
  • A economia salarial levaria mais de uma década para pagar uma única reposição.

Na maioria das ocupações operacionais, em que a diferença é praticamente zero, a conta nem começa.

O que isso diz sobre a gestão de salários

O que os dados sugerem, com a ressalva de que cada empresa tem a sua realidade:

  • Turnover não é ferramenta de controle de folha. Se a reposição sai pelo mesmo salário, a rotatividade só adiciona o custo da troca. A redução de folha que às vezes se atribui à rotatividade costuma vir de outra coisa, como cortar a posição ou reorganizar a equipe.
  • O mercado não está mais barato do que a sua tabela. Se quem entra na mesma ocupação ganha o mesmo que quem sai, a pessoa que sai por salário dificilmente será substituída por menos. O preço de mercado do cargo é aquele, e a pesquisa salarial serve para enxergá-lo antes da saída, e não depois.
  • Nos cargos qualificados, a diferença é um sinal de compressão. Quando quem entra ganha menos do que quem sai, parte da explicação é a experiência. A outra parte pode ser uma tabela que não acompanha o mercado e uma equipe antiga que recebeu aumentos sem critério. A mesma diferença, vista de dentro, aparece como pessoas na mesma função com salários distantes, um risco de equiparação salarial.
  • Reter custa menos do que repor, e a retenção começa na tabela. Faixas alinhadas ao mercado, critério de mérito e um caminho de carreira visível fazem mais pela folha do que contar com a economia de cada saída.

Como fizemos a análise

Usamos os microdados públicos de movimentação do Novo Caged, do Ministério do Trabalho e Emprego, de janeiro a agosto de 2026. Para comparar situações equivalentes, filtramos:

  • apenas empregados da categoria geral, com jornada contratual de 40 horas semanais ou mais e salário mensal;
  • sem contratos intermitentes, contratos em tempo parcial e aprendizes;
  • admissões por primeiro emprego, reemprego, prazo determinado e tipo não informado;
  • desligamentos por dispensa, pedido, término de contrato e acordo, sem transferências, aposentadorias e falecimentos;
  • salários entre 0,8 e 100 salários mínimos.

Comparamos as medianas de admissão e de desligamento em cada ocupação com pelo menos 500 movimentações de cada lado e calculamos a média ponderada pelo número de admissões.

Três limites precisam ser lembrados:

  1. O Caged não liga uma admissão à saída que ela repõe. A comparação é entre os fluxos de entrada e de saída de cada ocupação, e não entre o substituto e o substituído.
  2. A CBO agrupa cargos de níveis diferentes, como júnior e sênior, na mesma ocupação.
  3. O salário de desligamento é o salário contratual no momento da saída, sem variável nem benefícios.

Os números descrevem o mercado formal como um todo e não substituem a comparação cargo a cargo com uma pesquisa salarial, como mostramos em pesquisa salarial: média, mediana e percentis.

Para estimar quanto custa cada saída na sua empresa, use a calculadora de custo do turnover. Se a rotatividade já é um problema, veja o desafio de turnover e atração.

A vaga reposta custa o mesmo salário. A diferença é que ela também custa a troca.

Perguntas frequentes

Quem é contratado ganha menos do que quem saiu?

Muito pouco. Na análise da WorkForce RH com os microdados do Novo Caged de janeiro a agosto de 2026, a mediana de admissão ficou 0,6% abaixo da de desligamento na mesma ocupação, e 0,3% abaixo quando comparada também a mesma faixa de idade.

A rotatividade reduz o custo da folha?

Em geral, não. Como o substituto entra praticamente pelo mesmo salário, a rotatividade acrescenta o custo da reposição sem gerar economia relevante. A redução de folha costuma vir de cortar ou reorganizar posições, e não da troca de pessoas.

Em quais setores quem entra ganha menos?

Na análise, a diferença foi maior em eletricidade e gás (6,5%), atividades financeiras (3,9%), indústrias extrativas e informação e comunicação (2,6%). Em construção e serviços administrativos, foi praticamente zero.

O que é o Novo Caged?

É o registro oficial de admissões e desligamentos de empregados com carteira assinada, mantido pelo Ministério do Trabalho e Emprego, com microdados públicos mensais por ocupação, setor, região e salário.

Quais são os limites dessa análise?

O Caged não liga uma admissão à saída que ela repõe, a CBO agrupa níveis diferentes do mesmo cargo e o salário registrado é o contratual, sem variável nem benefícios. Os números descrevem o mercado formal como um todo.

Igor dos Santos

Sócio-fundador da WorkForce RH

Administração pela Unicamp e MBA em Gestão Estratégica de Pessoas pela PUC-Campinas. Mais de dez anos em remuneração estratégica e indicadores de RH, com passagem gerencial. Responde pela estratégia, pelo comercial e pela evolução do DataSalarial.

Fontes

  1. Ministério do Trabalho e Emprego, microdados do Novo Caged (movimentações de janeiro a agosto de 2026), no portal PDET
  2. Gallup, This Fixable Problem Costs U.S. Businesses $1 Trillion (custo de substituição de um empregado)

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