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Pesquisa salarial: como ler média, mediana e percentis
Ter o dado de mercado não basta: é preciso saber ler. Fontes de pesquisa, média contra mediana, percentis, as três camadas de remuneração e como medir o posicionamento de cada salário.

Em resumo
- Pesquisa salarial compara quanto a empresa paga com quanto o mercado paga por cargos equivalentes; ela não decide, sozinha, onde a empresa deve se posicionar.
- A mediana é mais confiável que a média porque não é puxada por salários fora da curva.
- Os percentis (P10 a P90) mostram a dispersão do mercado e ajudam a escolher posicionamentos diferentes por cargo.
- A comparação deve olhar três camadas: salário base, total dinheiro e remuneração total.
Definir salário pela pretensão do candidato é fazer conta de padaria. A empresa pergunta quanto a pessoa quer ganhar, torce para não ser absurdo, oferece um pouco abaixo e fecha. Meses depois, o contratado descobre que o colega ganha bem mais e pede aumento, ou o candidato que a empresa queria fecha com um concorrente que sabia exatamente quanto o mercado pagava.
A pesquisa salarial existe para trocar esse improviso por referência. Mas ter o dado não basta: é preciso saber ler. Neste artigo, explicamos as fontes de pesquisa, por que a mediana é mais confiável que a média, como interpretar os percentis e como transformar o número em decisão.
O que é pesquisa salarial
Pesquisa salarial é a comparação entre quanto a empresa paga e quanto o mercado paga por cargos equivalentes. Ela responde a uma pergunta simples, "quanto as outras empresas pagam por este cargo?", e serve de base para montar faixas salariais, fazer propostas de contratação, decidir méritos e identificar cargos defasados.
Ela não responde, sozinha, onde a empresa deve se posicionar. Essa é uma decisão de política salarial. A pesquisa mostra o mapa; a política escolhe o caminho.
De onde vêm os dados de uma pesquisa salarial
- Pesquisas de consultorias e plataformas. Bases construídas com metodologia própria, com descrição de cargos e recortes por região, segmento e porte.
- Pesquisas participativas. Um grupo de empresas compartilha dados e recebe o consolidado. São boas para setores muito específicos, mas dependem do número de participantes.
- Dados públicos. Registros administrativos como o Novo Caged e a RAIS mostram salários de admissão e de vínculos por ocupação (CBO). São abrangentes, mas a classificação por CBO agrupa cargos de complexidades muito diferentes.
- Anúncios de vagas. Úteis como termômetro, principalmente para cargos muito disputados, mas mostram o que se oferece, e não necessariamente o que se paga.
Na prática, uma boa base cruza mais de uma fonte, padroniza os nomes de cargo e exclui valores extremos antes de consolidar os números. O DataSalarial, por exemplo, combina dados anonimizados de projetos, varredura das principais plataformas de recrutamento e relatórios públicos, com atualização semestral.
Média ou mediana: qual usar na pesquisa salarial
A média soma todos os salários e divide pelo número de pessoas. O problema é que um ou dois valores muito fora da curva puxam o resultado e fazem parecer que aquilo representa o mercado. A mediana olha para o ponto central da distribuição: metade da amostra ganha mais, metade ganha menos. Por isso ela é pouco afetada por valores extremos.
| Profissional | A | B | C | D | E | F | Média | Mediana |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Salário | R$ 4.000 | R$ 4.500 | R$ 5.000 | R$ 5.500 | R$ 6.000 | R$ 25.000 | R$ 8.333 | R$ 5.250 |
Exemplo ilustrativo. Um único salário fora da curva leva a média para R$ 8.333, acima do que cinco dos seis profissionais ganham. A mediana, a média dos dois valores centrais (R$ 5.000 e R$ 5.500), continua representando o cargo.
Usar a média como referência leva a três erros comuns: pagar acima do necessário em alguns cargos, ficar abaixo do mercado em outros e criar distorções internas sem perceber. Por isso, na maioria dos projetos, usamos a mediana como ponto central da faixa salarial (o chamado midpoint).
Como ler os percentis
Percentis dividem a amostra ordenada em posições. Eles mostram não só o centro do mercado, mas a dispersão: quanto o mercado paga para quem está no início, no meio e no topo.
| Percentil | O que significa | Leitura de posicionamento |
|---|---|---|
| P10 | 10% da amostra ganha menos que esse valor | Muito conservador |
| P25 | Primeiro quartil | Conservador |
| P50 | Mediana: metade ganha menos, metade ganha mais | Alinhado ao mercado |
| P75 | Terceiro quartil | Agressivo |
| P90 | Só 10% da amostra ganha mais | Muito agressivo |
Uma distância grande entre P25 e P75 indica um cargo com práticas muito variadas no mercado, em geral porque o mesmo nome cobre escopos diferentes. Nesse caso, o matching precisa de mais cuidado.
As três camadas de remuneração
Comparar só o salário fixo pode esconder diferenças importantes. Uma empresa pode pagar o fixo na mediana e ficar bem abaixo do mercado no total, porque não tem variável. Por isso a comparação deve olhar três camadas:
| Camada | O que inclui |
|---|---|
| Salário base | Salário em carteira e adicionais legais, como periculosidade, insalubridade e adicional noturno |
| Total dinheiro | Salário base mais a remuneração variável de curto prazo (bônus, PLR, comissão). O 13º não entra aqui |
| Remuneração total | Total dinheiro mais o pacote de benefícios |
Para comparar pagamentos anuais, como a PLR, com o salário mensal, o valor anual é dividido por 12. A visão completa do pacote é o tema do artigo sobre recompensa total.
Como fazer o matching de cargos
O matching é a associação entre o cargo interno e o cargo equivalente de mercado. É a etapa que mais define a qualidade do resultado, e a mais subestimada. Três cuidados:
- Compare pelo conteúdo, não pelo nome. Um "analista" em uma empresa pode ser um "especialista" em outra. O que define a equivalência é responsabilidade, autonomia e complexidade.
- Respeite o nível. Júnior, pleno e sênior são cargos diferentes na pesquisa. Comparar um pleno com a mediana de um cargo sem nível mistura realidades.
- Use o recorte certo. A referência deve representar quem disputa os mesmos profissionais. Para cargos operacionais, a região costuma pesar mais. Para cargos executivos e técnicos escassos, o segmento e o porte podem pesar mais que a localização.
Do dado à decisão: posicionamento na faixa
Com a referência definida, cada salário pode ser comparado ao mercado. Um indicador simples é o posicionamento: o salário do profissional dividido pela referência de mercado, multiplicado por 100.
| Posicionamento | Leitura |
|---|---|
| Abaixo de 70% | Crítico: alto risco de perda |
| De 70% a 90% | Tensão: risco moderado |
| De 90% a 110% | Competitivo, alinhado ao mercado |
| Acima de 110% | Atenção: pode indicar necessidade de promoção ou exceção sem critério |
Um cuidado na leitura: o número geral da empresa é uma média. Duas ou três pessoas muito abaixo do mercado puxam o indicador e fazem parecer que toda a estrutura está defasada. A leitura útil vem da abertura por diretoria, área, nível e pessoa, que também mostra quanto custa corrigir cada recorte.
Erros comuns ao usar pesquisa salarial
- Usar a pretensão do candidato como referência. Ela mostra quanto uma pessoa quer, e não quanto o cargo vale.
- Comparar com dados velhos. Uma pesquisa de dois anos atrás já não representa cargos que se movem rápido.
- Ignorar o variável e os benefícios. A empresa pode estar competitiva no fixo e fora do mercado no total.
- Copiar a mediana sem decidir. Estar na mediana em todos os cargos é uma escolha, e nem sempre a melhor. Falamos disso em política salarial.
- Fazer a pesquisa uma vez e nunca mais. Pesquisa é foto; o mercado é filme. Veja como atualizar a tabela salarial.
A pesquisa salarial é a etapa de "olhar para fora" de um plano de cargos e salários. Se você quer consultar o mercado cargo a cargo, com percentis, as três camadas e o diagnóstico da sua folha, conheça o DataSalarial.
Salário é decisão financeira. Decidir sem referência não é flexibilidade; é risco.
Perguntas frequentes
O que é pesquisa salarial?
É a comparação entre quanto a empresa paga e quanto o mercado paga por cargos equivalentes, usada para montar faixas, fazer propostas de contratação, decidir méritos e identificar cargos defasados.
Por que usar a mediana e não a média na pesquisa salarial?
Porque a média é puxada por valores extremos: um único salário muito alto ou muito baixo distorce o resultado. A mediana é o ponto central da amostra, em que metade ganha menos e metade ganha mais, e representa melhor o cargo.
O que é o percentil 75 em pesquisa salarial?
É o valor abaixo do qual estão 75% dos salários da amostra. Posicionar um cargo no P75 significa pagar mais que três quartos do mercado, uma escolha comum para cargos críticos ou escassos.
Dados do Caged e da RAIS servem como pesquisa salarial?
Servem como referência complementar, porque são abrangentes. Mas classificam os vínculos por CBO, que agrupa cargos de complexidades diferentes sob o mesmo código. Para montar faixas, é preciso um matching mais fino pelo conteúdo do cargo.
Posso usar a pretensão salarial do candidato como referência?
Não como referência principal. A pretensão mostra quanto uma pessoa quer ganhar, e não quanto o cargo vale no mercado. Usá-la como base gera distorções internas e propostas fora do mercado.

Igor dos Santos
Sócio-fundador da WorkForce RH
Administração pela Unicamp e MBA em Gestão Estratégica de Pessoas pela PUC-Campinas. Mais de dez anos em remuneração estratégica e indicadores de RH, com passagem gerencial. Responde pela estratégia, pelo comercial e pela evolução do DataSalarial.
Fontes


