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Plano de cargos e salários: o que é, etapas e quando fazer

O guia completo para estruturar cargos, faixas e política de remuneração: o que o plano precisa ter, as etapas na ordem certa e os erros que fazem um plano bem desenhado não sair do papel.

Lorenzo Danelon
Lorenzo Danelon · Sócio-fundador da WorkForce RH

· 9 min de leitura

Ilustração isométrica de um prédio em construção com andares organizados e um andar iluminado em dourado

Em resumo

  • Plano de cargos e salários organiza quais cargos a empresa tem, quanto cada um vale e como as pessoas evoluem dentro deles.
  • Ele tem cinco peças: estrutura de cargos, descrições, pesquisa salarial, tabela com faixas e política de remuneração.
  • Além de dar critério às decisões, o plano protege a empresa: pela CLT, quadro de carreira ou PCS por norma interna afasta as regras de equiparação salarial.
  • A ordem importa: estrutura antes da pesquisa, e o custo de enquadramento calculado antes de qualquer comunicação.

Toda empresa que cresce passa por um momento parecido. Contratações começam a acontecer por urgência, promoções por confiança e aumentos por medo de perder alguém. No curto prazo, funciona. No médio prazo aparecem as inconsistências: cargos com escopos diferentes sob o mesmo nome, salários sem lógica comparativa e líderes que não sabem explicar por que alguém ganha o que ganha.

O plano de cargos e salários é a ferramenta que resolve isso. Neste guia, explicamos o que ele é, o que precisa conter, as etapas de construção, quando a empresa precisa de um e os erros que fazem um plano bem desenhado não funcionar na prática.

O que é um plano de cargos e salários

Plano de cargos e salários (PCS) é o conjunto de estrutura, regras e valores que organiza quais cargos a empresa tem, quanto cada um vale e como as pessoas evoluem dentro deles. Ele responde a três perguntas que toda decisão de remuneração esbarra:

  • Para dentro: quais são os cargos, o que cada um faz e qual o peso de cada um na estrutura?
  • Para fora: quanto o mercado paga por cargos equivalentes, na mesma região, segmento e porte?
  • A decisão: onde a empresa quer se posicionar em relação ao mercado e quanto isso custa?

Um PCS não é só uma tabela de valores. A tabela é o resultado; o que a sustenta é a estrutura de cargos, o dado de mercado e a política que diz como a tabela será usada no dia a dia.

O que um plano de cargos e salários precisa ter

ComponenteO que éPara que serve
Estrutura de cargos e carreirasOrganograma, níveis hierárquicos, famílias de cargos e trilhasMostrar como a empresa está organizada e para onde as pessoas podem crescer
Descrições de cargoMissão, responsabilidades, requisitos e escopo de cada cargoDiferenciar cargos de verdade, e não só no nome
Pesquisa salarialComparação cargo a cargo com o mercado, em fixo, variável e benefíciosSaber onde a empresa está em relação a quem disputa os mesmos profissionais
Tabela (estrutura) salarialFaixas por cargo ou grade, com degraus de progressãoDar limite e critério para admissão, mérito e promoção
Política de remuneraçãoAs regras de admissão, mérito, promoção, movimentação e revisão da tabelaGarantir que a tabela seja usada do mesmo jeito por todos os gestores

Por que ter um plano: o que ele resolve na prática

Decisões com critério, e não por percepção

Sem estrutura, cada aumento é uma negociação isolada. Quem pede mais, ou ameaça sair, ganha mais. O PCS dá ao gestor uma régua para dizer sim, não ou ainda não, com argumento.

Proteção jurídica

Distorções salariais sem justificativa técnica são a origem de boa parte dos pedidos de equiparação salarial. A própria CLT reconhece o plano como proteção: pelo art. 461, §2º, as regras de equiparação não prevalecem quando a empresa tem pessoal organizado em quadro de carreira ou adota plano de cargos e salários por norma interna ou negociação coletiva, sem necessidade de homologação. O §3º complementa: as promoções podem seguir merecimento, antiguidade ou um desses critérios.

Desde a Lei 14.611/2023, de igualdade salarial, o tema ganhou mais peso: empresas com 100 ou mais empregados publicam relatórios semestrais de transparência salarial, e diferenças entre homens e mulheres no mesmo grupo de cargos precisam ter critério que as explique. Falamos disso em detalhe no artigo sobre equidade salarial.

Previsibilidade orçamentária

Com faixas e regras definidas, a empresa sabe quanto custa uma promoção, um ciclo de mérito ou uma nova vaga antes de decidir. A folha deixa de crescer por acúmulo de exceções.

Atração e retenção

Profissionais vão embora quando não enxergam futuro ou quando percebem que o critério não existe. Um plano bem comunicado mostra o caminho e o que é preciso para avançar.

Quando a empresa precisa de um plano de cargos e salários

Não existe um número mágico de funcionários. Os sinais costumam aparecer antes do que se imagina:

  • Pessoas com o mesmo cargo ganham valores muito diferentes, e ninguém sabe explicar por quê.
  • Cada contratação vira negociação do zero, sem referência de faixa.
  • Promoções acontecem por confiança ou tempo de casa, e não por critério.
  • Gestores criam cargos ou títulos novos para conseguir dar aumento.
  • Profissionais bons saem e a empresa descobre na entrevista de desligamento que o salário estava defasado.
  • A empresa aplica o dissídio todo ano e acredita que isso mantém a tabela atualizada (não mantém: explicamos em como atualizar a tabela salarial).
  • Há uma auditoria, uma fiscalização ou uma reclamação trabalhista pedindo justificativa para diferenças salariais.

Se três ou mais desses sinais são familiares, a empresa já está pagando o custo de não ter um plano, só que de forma invisível.

As etapas de um plano de cargos e salários

A sequência abaixo é a que usamos nos projetos da WorkForce RH. A ordem importa: a estrutura vem antes da pesquisa, porque não dá para comparar com o mercado um cargo que ainda não foi definido.

  1. Estrutura de carreiras. Revisão do organograma, dos níveis hierárquicos, da amplitude de controle de cada gestor (span of control) e das trilhas de crescimento, inclusive cadeiras que ainda não têm ocupante mas que o crescimento previsto vai exigir. É a etapa que mais envolve a liderança.
  2. Descrições de cargo. O que cada cargo faz, com que autonomia e com que requisitos. Uma boa descrição diferencia cargos pela complexidade da entrega, e não pelo nome. Aqui também se capacitam os gestores a escrever e manter as descrições.
  3. Pesquisa de remuneração total. Comparação cargo a cargo com o mercado, considerando salário fixo, remuneração variável e benefícios, com recortes de região, segmento e porte. Os detalhes de leitura estão no artigo sobre pesquisa salarial, mediana e percentis.
  4. Cenários de custo. Simulações conservadoras e mais agressivas de posicionamento, já com encargos, 13º e férias. É nessa etapa que a diretoria escolhe o apetite de investimento.
  5. Estrutura salarial. Tabela com faixas por cargo ou grade, com degraus de progressão (na maioria dos nossos projetos, cinco), e o enquadramento pessoa a pessoa: quem fica abaixo da faixa, quem está acima e quanto custa corrigir.
  6. Política de remuneração. As regras do jogo para admissão, mérito, promoção e revisão da tabela, aprovadas e assinadas pela diretoria. É o documento que dá legitimidade ao plano em uma negociação sindical ou em uma ação trabalhista.

A empresa não precisa começar do zero em todas as etapas. Quem já tem estrutura e descrições atualizadas pode começar pela pesquisa. O prazo de um projeto depende principalmente do número de cargos e da disponibilidade da liderança para validar cada etapa.

Ilustração comparando um modelo genérico de plano de cargos com um plano personalizado para a empresaUm plano copiado de outra empresa não reflete a sua estrutura, o seu mercado nem o seu momento.

Como montar a tabela salarial: faixas, degraus e sobreposição

A tabela é a parte mais visível do plano e a que mais gera dúvida. Três decisões definem o desenho:

  • Referência de mercado. Na maior parte dos casos, usamos a mediana do mercado como ponto central da faixa, por ser menos distorcida por valores extremos do que a média. Cargos críticos ou muito disputados podem ser posicionados em percentis mais altos.
  • Amplitude da faixa. A distância entre o mínimo e o máximo de cada faixa define quanto espaço existe para crescer no mesmo cargo. Faixas estreitas demais forçam promoções artificiais; largas demais perdem a função de limite.
  • Sobreposição entre níveis. O topo de um nível pode encostar no início do seguinte, mas não pode ultrapassar muito. Se o analista pleno no fim da faixa ganha mais que o sênior no início, a promoção perde sentido.
CargoDegrau ADegrau BDegrau C (referência)Degrau DDegrau E
Analista júniorR$ 3.800R$ 4.050R$ 4.300R$ 4.550R$ 4.800
Analista plenoR$ 5.000R$ 5.350R$ 5.700R$ 6.050R$ 6.400
Analista sêniorR$ 6.700R$ 7.150R$ 7.600R$ 8.050R$ 8.500

Exemplo ilustrativo com cinco degraus e o degrau central ancorado na mediana de mercado. Os valores não representam nenhum cargo real.

Por que tantos planos não funcionam na prática

Um plano pode estar tecnicamente correto e mesmo assim não mudar nada. Os motivos mais comuns:

  • Plano copiado. Plano de cargos e salários não é receita de bolo. Uma tabela que funciona para uma empresa pode ser irrelevante, ou até prejudicial, para outra com cultura, mercado e momento diferentes.
  • Pesquisa imprecisa ou desatualizada. Comparar com cargos que não são equivalentes, ou com dados de anos atrás, produz uma tabela que já nasce errada.
  • Ninguém sabe explicar. Se o gestor não consegue explicar a lógica para a equipe, o plano vira um documento de gaveta. O melhor teste é simples: o profissional consegue explicar em casa como ganha o que ganha e o que precisa fazer para evoluir?
  • Exceções desde o primeiro mês. Cada exceção aprovada fora da política ensina à organização que a política é negociável.
  • Nunca é revisado. O mercado se move por cargo, e não por índice. Uma tabela sem revisão periódica volta a ficar defasada em poucos anos.

Quanto custa implantar um plano de cargos e salários

O custo tem duas partes. A primeira é o projeto em si, que depende do número de cargos e de quais etapas a empresa precisa. A segunda, e mais importante, é o custo de enquadramento: quanto a folha muda para colocar cada pessoa dentro da faixa do seu cargo.

Esse segundo número precisa ser calculado antes de qualquer comunicação. Em alguns casos ele é baixo; em outros, mostra que a empresa precisa investir para reter, e que o enquadramento deve ser feito em fases. O papel do plano é dar clareza sobre esse número, e não prometer redução de folha.

Plano de cargos e salários e as outras peças da remuneração

O PCS é a base sobre a qual as outras práticas se apoiam. Primeiro vem a estrutura de cargos e salários; depois, a remuneração variável e a avaliação de desempenho; por cima de tudo, os indicadores de remuneração. Inverter essa ordem costuma produzir programas de bônus que premiam cargos mal definidos e trilhas de carreira que a tabela não consegue pagar.

Se a sua empresa está estruturando o primeiro plano, a página nunca estruturei cargos e salários mostra o caminho que costumamos seguir. Se já existe um plano e a tabela ficou para trás, veja tabela salarial defasada. E, para conhecer o projeto completo, acesse Cargos e Salários.

Estruturar cargos, faixas e política não é burocratizar. É dar à empresa um critério para decidir e às pessoas uma razão para ficar.

Perguntas frequentes

O que é plano de cargos e salários?

É o conjunto de estrutura, regras e valores que define quais cargos a empresa tem, quanto cada um vale em relação ao mercado e à estrutura interna, e como as pessoas evoluem dentro deles por mérito e promoção.

Plano de cargos e salários é obrigatório?

Não para empresas privadas em geral. Mas ele tem efeito jurídico: pelo art. 461, §2º, da CLT, as regras de equiparação salarial não prevalecem quando a empresa adota plano de cargos e salários por norma interna ou negociação coletiva. E empresas com 100 ou mais empregados precisam justificar diferenças salariais nos relatórios da Lei 14.611/2023.

Quanto tempo leva para fazer um plano de cargos e salários?

Depende principalmente do número de cargos, de quais etapas a empresa já tem prontas e da disponibilidade da liderança para validar estrutura e descrições. Por isso não faz sentido falar em prazo fixo antes de conhecer a estrutura.

Qual a diferença entre plano de cargos e salários e tabela salarial?

A tabela salarial é uma das peças do plano: as faixas de valor por cargo ou grade. O plano inclui também a estrutura de cargos, as descrições, a pesquisa de mercado e a política que define como a tabela é usada em admissões, méritos e promoções.

De quanto em quanto tempo o plano precisa ser revisado?

A tabela deve ser comparada com o mercado ao menos uma vez por ano, porque cada cargo se valoriza em um ritmo diferente. A estrutura de cargos e as descrições precisam ser revistas sempre que a empresa muda de forma relevante: novas áreas, novos níveis ou mudança de estratégia.

Lorenzo Danelon

Sócio-fundador da WorkForce RH

Engenharia de Produção pelo Mackenzie e pós-graduação em Remuneração Estratégica. Vem de remuneração, orçamento de pessoas, indicadores e folha de pagamento. É a liderança técnica da casa: método, condução dos projetos e qualidade da entrega.

Fontes

  1. Consolidação das Leis do Trabalho, art. 461 (equiparação salarial e plano de cargos e salários)
  2. Lei 14.611/2023 (igualdade salarial e de critérios remuneratórios entre mulheres e homens)

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