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Transparência salarial: divulgar a faixa na vaga começa dentro da empresa

Publicar a faixa de uma vaga é fácil; difícil é explicar por que quem já está na casa ganha menos. O que é obrigatório, o que vem por aí e por que a transparência começa pela estrutura interna.

Igor dos Santos
Igor dos Santos · Sócio-fundador da WorkForce RH

· 5 min de leitura

Ilustração isométrica de um prédio de vidro com o interior organizado à mostra

Em resumo

  • Transparência salarial tem níveis: critérios, faixas internas, faixas em vagas, relatórios agregados e salários individuais.
  • No Brasil, a Lei 14.611/2023 exige relatório semestral de empresas com 100 ou mais empregados; a faixa na vaga ainda não é obrigatória.
  • Na União Europeia, a Diretiva 2023/970 garante ao candidato a informação da faixa e proíbe perguntar o histórico salarial.
  • Divulgar faixas sem antes corrigir distorções internas gera atrito com quem já está na empresa.

Muitas empresas evitam divulgar a faixa salarial nos anúncios de vagas alegando que isso reduz a margem de negociação com candidatos. Na prática, o motivo costuma ser outro: a falta de alinhamento interno. Publicar a faixa de uma vaga é fácil. Difícil é explicar por que quem já está na casa, no mesmo cargo, ganha menos do que o anúncio oferece.

A pressão por transparência salarial é crescente: lei de igualdade salarial no Brasil, diretiva europeia, leis estaduais nos Estados Unidos e candidatos que comparam propostas com informação na mão. Neste artigo, explicamos o que é transparência salarial, o que já é obrigatório, o que está em discussão e por que ela começa dentro da empresa.

O que é transparência salarial

Transparência salarial é o grau em que as informações sobre remuneração são conhecidas por quem é afetado por elas. Ela tem níveis diferentes, que não são a mesma coisa:

NívelO que é divulgadoPara quem
CritériosComo a empresa define salários, mérito e promoçãoColaboradores
Faixas internasA faixa salarial do próprio cargo e onde a pessoa está nelaCada colaborador
Faixas em vagasA faixa salarial da posição anunciadaCandidatos
Relatórios agregadosDiferenças salariais por gênero e outros recortesGoverno e sociedade
Salários individuaisQuanto cada pessoa ganhaRaro e, em geral, desaconselhado

Transparência, na maioria dos casos, não significa abrir o salário de cada pessoa. Significa que as regras e as faixas sejam conhecidas e que a empresa consiga explicar as diferenças.

O que já é obrigatório no Brasil

Desde a Lei 14.611/2023, empresas privadas com 100 ou mais empregados publicam relatórios semestrais de transparência salarial e de critérios remuneratórios, com dados anonimizados que comparam salários e cargos de liderança entre mulheres e homens. Quando há desigualdade, precisam implementar um plano de ação. Explicamos as regras e as multas em equidade salarial.

A divulgação de faixa salarial em anúncios de vaga ainda não é obrigatória no Brasil. Há projetos de lei sobre o tema na Câmara dos Deputados, como o PL 1.149/2022, que prevê a informação da faixa e dos requisitos nos anúncios, com multa em caso de descumprimento.

O que está acontecendo lá fora

  • União Europeia. A Diretiva (UE) 2023/970 dá ao candidato o direito de saber o salário inicial ou a faixa salarial da vaga, no anúncio ou antes da entrevista, e proíbe o empregador de perguntar quanto o candidato ganha ou ganhava (art. 5º). Também cria direitos de informação para quem já está empregado e relatórios de diferença salarial por gênero. O prazo para os países incorporarem a diretiva às leis nacionais terminou em 7 de junho de 2026, e a maioria ainda estava em processo de transposição nessa data.
  • Estados Unidos. Vários estados e cidades exigem a faixa salarial nos anúncios de vaga, o que levou muitas empresas a adotar a prática em todo o país.

Para empresas brasileiras com operação ou contratação na Europa, a diretiva já é uma questão prática. Para as demais, é um sinal de para onde o tema caminha.

A transparência começa dentro da empresa

O desalinhamento aparece quando, por exemplo, a empresa anuncia uma posição urgente com salário de R$ 8 mil, enquanto profissionais que já exercem a mesma função recebem R$ 6 mil. O ruído sobre injustiça e o risco de passivo trabalhista surgem no mesmo dia em que o anúncio é publicado.

Iceberg mostrando que a transparência salarial visível depende de uma base interna: estrutura de cargos, faixas salariais, equidade interna, critérios de progressão e benchmark de mercadoA faixa publicada na vaga é a ponta do iceberg. A base é estrutura de cargos, faixas, equidade interna, critérios de progressão e dado de mercado.

Por isso, a transparência externa só é viável quando duas etapas anteriores estão resolvidas:

  1. Faixas e critérios estruturados. Responsabilidades e competências mapeadas para cada nível de cada cargo, com faixas salariais baseadas em dado de mercado. Veja plano de cargos e salários.
  2. Equidade interna. Diferenças entre pessoas do mesmo cargo justificadas por fatores objetivos, como tempo na função, complexidade das entregas ou formação, e não pelo histórico de negociação de cada uma na contratação.

Tentar adotar transparência para atrair candidatos sem antes organizar a estrutura interna costuma gerar atrito com quem já está na casa.

Prós e contras de divulgar a faixa na vaga

A favorPontos de atenção
Atrai candidatos alinhados à faixa e reduz desistências no fim do processoExpõe distorções internas que ainda não foram corrigidas
Encurta negociações e o tempo de fechamento das vagasExige faixas atualizadas e defensáveis
Reduz diferenças salariais que nascem da negociação individualFaixas muito largas perdem utilidade como informação
Fortalece a percepção de justiça e a marca empregadoraPede gestores preparados para explicar critérios

Como se preparar para a transparência salarial

  1. Diagnostique a estrutura atual: quem está abaixo, dentro e acima da faixa de cada cargo, e por quê.
  2. Corrija as distorções sem justificativa, com plano e custo calculado.
  3. Escreva a política salarial, com regras de admissão, mérito e promoção. Veja política salarial.
  4. Comunique primeiro para dentro: cada pessoa deve conhecer a faixa do próprio cargo antes de vê-la em um anúncio.
  5. Prepare os gestores para responder às perguntas que vão surgir.
  6. Só então, divulgue faixas nas vagas, começando pelas famílias de cargos com estrutura mais madura.

Uma estrutura interna sólida é o que torna a transparência possível e segura. Se a sua política salarial atual não daria segurança para divulgar as faixas das vagas hoje, esse é o ponto de partida. Conheça o projeto de Cargos e Salários.

Transparência não é abrir números. É ter critério para explicar cada um deles.

Perguntas frequentes

O que é transparência salarial?

É o grau em que as informações sobre remuneração são conhecidas por quem é afetado por elas: os critérios de definição de salários, as faixas de cada cargo, as faixas das vagas e os relatórios de diferenças salariais. Em geral, não inclui a divulgação do salário individual de cada pessoa.

É obrigatório divulgar a faixa salarial nas vagas no Brasil?

Ainda não. Há projetos de lei sobre o tema na Câmara dos Deputados, como o PL 1.149/2022. O que já é obrigatório é o relatório semestral de transparência salarial da Lei 14.611/2023, para empresas com 100 ou mais empregados.

O que diz a diretiva europeia de transparência salarial?

A Diretiva (UE) 2023/970 garante ao candidato o direito de saber o salário inicial ou a faixa da vaga antes da entrevista e proíbe o empregador de perguntar o histórico salarial. O prazo de transposição para as leis nacionais terminou em 7 de junho de 2026.

Divulgar a faixa salarial na vaga ajuda a contratar?

Em geral, atrai candidatos alinhados à faixa, reduz desistências no fim do processo e encurta negociações. Mas exige faixas atualizadas e uma estrutura interna sem distorções, para não gerar atrito com quem já está na empresa.

Por onde começar a transparência salarial?

Pela estrutura interna: faixas salariais com dado de mercado, correção das diferenças sem justificativa, uma política salarial escrita e comunicação das faixas para os próprios colaboradores antes de divulgá-las para o mercado.

Igor dos Santos

Sócio-fundador da WorkForce RH

Administração pela Unicamp e MBA em Gestão Estratégica de Pessoas pela PUC-Campinas. Mais de dez anos em remuneração estratégica e indicadores de RH, com passagem gerencial. Responde pela estratégia, pelo comercial e pela evolução do DataSalarial.

Fontes

  1. Lei 14.611/2023 (igualdade salarial e relatórios de transparência)
  2. Diretiva (UE) 2023/970 do Parlamento Europeu e do Conselho, sobre transparência remuneratória

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