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Reajuste salarial 2027: o que as empresas planejam e como orçar

Dados de um estudo da WorkForce RH com 32 empresas, do Boletim Focus e do DIEESE para responder à pergunta do fim de ano: quanto reservar para o reajuste de 2027.

Igor dos Santos
Igor dos Santos · Sócio-fundador da WorkForce RH

· 6 min de leitura

Ilustração em estilo gravura de uma mesa de navegação com carta náutica, compasso de pontas, barômetro, luneta e corda

Em resumo

  • No estudo da WorkForce RH com 32 empresas, 56% projetam reajuste entre 3% e 5% para 2027, e nenhuma acima de 7%.
  • O Focus de 9/10/2026 projeta IPCA de 5,22% em 2026 e 4,30% em 2027; em 2026, 87,5% das negociações tiveram ganho real.
  • Reposição da inflação mais o ganho real visto em 2026 pode levar reajustes acima de 5%: vale orçar em cenários.
  • O impacto no ano depende da data-base: o reajuste pesa só nos meses após ela, mais 13º, férias e encargos.

Entre outubro e dezembro, toda empresa faz a mesma pergunta: quanto reservar para o reajuste salarial do ano que vem? A resposta mais comum é olhar a inflação do momento e arredondar. Em 2027, esse atalho pode deixar o orçamento curto.

Este artigo reúne o que as empresas estão planejando para o reajuste salarial de 2027, o que os indicadores públicos mostram e como transformar essas informações numa projeção de folha que não precise ser refeita no meio do ano.

O que as empresas estão planejando para 2027

Entre 23 de setembro e 14 de outubro de 2026, a WorkForce RH ouviu 32 empresas, de portes e setores diferentes, sobre o planejamento de remuneração para 2027. É uma amostra pequena, que mostra tendência, e não um retrato estatístico do mercado. Os sinais, porém, são claros:

  • 56% projetam reajuste entre 3% e 5%. Entre as empresas que já definiram o número, são 69%. Outras 19% projetam entre 5% e 7%, e 19% ainda não definiram. Nenhuma empresa sinalizou reajuste acima de 7%.
  • Na maioria das empresas, o critério é externo. 41% definem o reajuste pela convenção coletiva e 28% pela inflação. Só 13% usam a pesquisa salarial de mercado como critério principal.
  • A folha vai crescer. 78% esperam um orçamento de folha maior que o de 2026.

O que os indicadores mostram

IndicadorValorFonte
IPCA esperado para 20265,22%, em alta há quatro semanasBanco Central, Focus de 9/10/2026
IPCA esperado para 20274,30%Banco Central, Focus de 9/10/2026
Reajuste necessário para repor o INPC (data-base setembro de 2026)3,98%DIEESE, De Olho nas Negociações nº 72
Reajustes acima do INPC no 1º semestre de 202687,5% dos 7.858 analisadosDIEESE, nº 70
Ganho real médio no 1º semestre de 20261,57% acima do INPCDIEESE, nº 70
Ganho real médio na data-base agosto de 20261,17% acima do INPCDIEESE, nº 72

Dois cuidados de leitura:

  • O Focus projeta o IPCA, mas as negociações costumam usar o INPC, que mede a inflação das famílias de menor renda. Os dois andam próximos, mas não são iguais.
  • O reajuste de cada data-base repõe a inflação dos 12 meses anteriores a ela. Uma categoria com data-base em maio de 2027 vai negociar sobre a inflação de maio de 2026 a abril de 2027, e não sobre a projeção para o ano.

Por que a faixa de 3% a 5% pode ser apertada

Uma leitura possível dos números acima, que não é uma previsão: Em 2026, a grande maioria das negociações coletivas repôs a inflação e ainda concedeu ganho real, em média acima de 1%. Se esse padrão se repetir em 2027 sobre uma inflação acumulada próxima de 4% a 5%, o reajuste coletivo de muitas categorias ficaria entre 5% e 6%, acima do teto da faixa em que a maioria das empresas está planejando.

Um exemplo ilustrativo: com INPC acumulado de 4,5% na data-base e ganho real de 1,2%, o reajuste negociado seria de cerca de 5,75% (1,045 × 1,012). Uma empresa que orçou 4% teria uma diferença de quase dois pontos percentuais sobre a folha da categoria a partir daquele mês.

Há fatores que podem puxar o número para baixo, como a desaceleração da inflação no segundo semestre de 2026 e negociações mais duras em setores pressionados. Por isso, o caminho mais prudente não é orçar o pior cenário. É orçar mais de um cenário e saber, antes da negociação, quanto cada um custa.

O reajuste é só a primeira camada do orçamento

O reajuste coletivo é obrigatório nos termos da convenção, mas o orçamento de remuneração tem outras camadas, que detalhamos em tipos de aumento salarial. Nosso estudo mostra onde elas costumam ficar descobertas:

  • Mérito e promoção. 28% das empresas ainda não definiram a verba. Entre as que definiram, a faixa mais comum é de 1% a 3% da folha. Veja como distribuir esse valor em aumento por mérito.
  • Desligamentos. 44% não têm nenhuma verba prevista para desligamentos, e outros 28% ainda não definiram. É um custo que acontece de qualquer forma e que aparece no meio do ano como surpresa. Para estimar quanto custa cada saída, use a calculadora de custo do turnover.
  • Ajustes de mercado. Só 13% das empresas usam pesquisa salarial como critério principal de reajuste. Isso significa que cargos que se moveram mais rápido que a inflação continuam sem orçamento próprio.

Como projetar o reajuste no orçamento de 2027

  1. Liste as datas-base. Para cada categoria representada na folha, anote a data-base e a convenção ou o acordo vigente. Empresas com unidades em cidades diferentes costumam ter mais de uma.
  2. Monte três cenários de reajuste coletivo. Por exemplo: só a reposição do INPC projetado, reposição mais um ganho real moderado, e reposição mais o ganho real médio observado em 2026.
  3. Calcule o efeito no ano, e não no mês. Um reajuste com data-base em maio afeta oito meses de salário em 2027, além de 13º salário, férias e encargos. Projetar o percentual sobre a folha anual inteira superestima o custo; esquecer os reflexos subestima.
  4. Confira os pisos. O novo piso salarial pode subir mais que o reajuste geral e comprimir a base da tabela. Quem fica abaixo do novo piso precisa de ajuste próprio.
  5. Some as outras camadas. Mérito, promoções, enquadramentos e uma reserva para cargos defasados, cada um com o seu valor.
  6. Leve os cenários para a diretoria antes da negociação. A decisão sobre quanto a empresa aceita negociar fica melhor quando o custo de cada cenário já está na mesa.

Um exemplo ilustrativo de cálculo

Uma empresa tem folha mensal de R$ 800 mil numa categoria com data-base em maio. Os números são hipotéticos.

  • Com reajuste de 5,5%, o acréscimo mensal é de R$ 44 mil a partir de maio.
  • De maio a dezembro, são oito meses, ou R$ 352 mil.
  • O 13º salário e o terço de férias proporcionais acrescentam cerca de R$ 44 mil e R$ 10 mil.
  • Antes dos encargos, o impacto em 2027 fica perto de R$ 406 mil, e não os R$ 528 mil de aplicar 5,5% sobre os doze meses.

Em 2028, o mesmo reajuste já pesa o ano inteiro. Por isso, a projeção precisa olhar dois exercícios.

O reajuste coletivo não atualiza a tabela

Um último ponto, que o próprio estudo reforça: 41% das empresas reajustam pela convenção, e 53% estão sem plano de cargos e salários revisto nos últimos dois anos. Aplicar o reajuste coletivo todo ano mantém o poder de compra, mas não diz se cada cargo está alinhado ao mercado. Explicamos a diferença em como atualizar a tabela salarial.

Montar os cenários de custo, com encargos, faz parte do projeto de Cargos e Salários. Se a tabela já está para trás, veja também o desafio de tabela salarial defasada.

O reajuste é negociado uma vez por ano. O orçamento que não previu a negociação é renegociado o ano inteiro.

Perguntas frequentes

Qual será o reajuste salarial em 2027?

Não existe um número único: cada categoria negocia na sua data-base. No estudo da WorkForce RH com 32 empresas, 56% projetam entre 3% e 5% e 19% entre 5% e 7%. A inflação acumulada até cada data-base e o ganho real negociado definem o percentual de cada categoria.

O reajuste salarial anual é obrigatório?

É obrigatório nos termos da convenção coletiva, do acordo coletivo ou da sentença normativa que alcança os empregados. Não há lei que imponha um reajuste anual por um índice definido; a Lei 10.192/2001 inclusive proíbe reajuste automático vinculado a índice de preços.

O reajuste pode ser menor que a inflação?

Pode, se for o que a negociação coletiva fixar. Em 2026, porém, a maioria das negociações acompanhadas pelo DIEESE ficou acima do INPC; no primeiro semestre, 87,5% tiveram ganho real.

Qual índice é usado no reajuste salarial?

As negociações costumam usar o INPC, do IBGE, acumulado nos 12 meses anteriores à data-base como referência de reposição. O percentual final, porém, é negociado e pode incluir ganho real.

Como calcular o impacto do reajuste no orçamento?

Aplique o percentual sobre a folha da categoria apenas nos meses a partir da data-base, some os reflexos em 13º salário, férias com o terço e encargos, e projete também o ano seguinte, em que o reajuste pesa nos doze meses.

Igor dos Santos

Sócio-fundador da WorkForce RH

Administração pela Unicamp e MBA em Gestão Estratégica de Pessoas pela PUC-Campinas. Mais de dez anos em remuneração estratégica e indicadores de RH, com passagem gerencial. Responde pela estratégia, pelo comercial e pela evolução do DataSalarial.

Fontes

  1. Banco Central do Brasil, Focus - Relatório de Mercado de 9 de outubro de 2026 (expectativas de IPCA para 2026 e 2027)
  2. DIEESE, De Olho nas Negociações nº 70 (julho de 2026): balanço dos reajustes do 1º semestre de 2026
  3. DIEESE, De Olho nas Negociações nº 72 (setembro de 2026): data-base agosto e reajuste necessário
  4. Lei 10.192/2001, arts. 10 e 13 (data-base e vedação de reajuste automático por índice de preços)

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